Facebook: além do número de Dumbar

22/02/2011 23:43

Nilton Bahlis dos Santos*

 

Quem estuda sistemas complexos, certamente já colocou os olhos em algum texto que faz referência ao número de Dumbar. Empiricamente é possível observar que as redes de relacionamento que as pessoas conseguem manter relações intersubjetivas, não superam a um número por volta de 160 pessoas.

Ocorre que só é possível ampliar as relações a partir deste número através de relações que não se caracterizam com intersubjetivas (pessoa a pessoa). Relações estabelecidas não com pessoas, mas com grupos.

Podemos dizer que é exatamente a partir deste limite que nascem as vilas e as cidades, que constroem relações com o grupo através de seus espaços físicos que se transformam em memórias e condicionantes físicos de determinados tipo de relação e interação. Os meios de comunicação, a chamada mídia, trabalham com números superiores a este, através de recursos de “broadcast”, ou seja, relações que não se dão pessoa a pessoa e, portanto não permitem que elas as modulem. A única opção é pegar ou largar, ligar ou desligar.

As redes sociais viabilizaram relações maiores do que este número o que coloca alguns problemas relacionados a como administrar o aumento do fluxo de informações.

A tendência das pessoas, em função das maneiras com que está habituada a interagir, é tentar estabelecer nas redes relações intersubjetivas o que rapidamente se mostra impossível, a não ser com um número reduzido de pessoas. Alguns tentam reduzir sua atividade a um pequeno grupo para conseguir manter estes hábitos. Outros ensaiam novas formas de administrar uma relação intersubjetiva com um pequeno grupo combinada com relações não intersubjetivas em maior escala.

Uma boa rede social cria instrumentos diversos para permitir esta modulação por parte do usuário. No Facebook, por exemplo, você tem a oportunidade do chat e das mensagens pessoais, além das mensagens de curtir e alguns outros recursos para as interações intersubjetivas e ocasionalmente uma troca de comentários. Outras, como o mural particularmente, mas também os comentários servem às interações não intersubjetivas.

Ocorre que a grande massa de usuários ainda não consegue configurar suas interações. Além do mais, mesmo as relações não intersubjetivas, exigem determinadas condições para se desenvolver. Os murais do Facebook, a partir de um certo número de amigos (o número de Dumbar é aqui uma referência) começa a acumular um tal números de mensagens, que tornam inviáveis tratá-las uma a uma.

Isso faz que, para aproveitar esta massa de informações que encontramos no Facebook, assim com na Internet, temos de estabelecer relações com elas, e não com as pessoas que as escreveram, o que transforma os sistemas de busca (aleatório) no recurso mais eficiente para isto. Mas, de certa maneira, o Mural das Redes Sociais pode cumprir também este papel. Mas isto exige que ele seja configurado, escolhendo-se quais os fluxos que interessam.

Atualmente, uma grande massa de usuários da Internet começa a passar o número de Dumbar. Isto tem colocado a necessidade de estabelecer estas configurações no Facebook. Como a grande maioria dos milhões de seus usuários esta engatinhando na Internet (e esta é hoje sua grande virtude: educá-las para ela), o Facebook, unilateralmente, tem feito mudanças nestas configurações, por exemplo, para que só apareça em seu mural, os posts daqueles com que você teve alguma relação direta nas últimas duas semanas, o que tem desgostado muita gente.

Mas é possível você próprio reconfigurar seus fluxos, não apenas barrando aqueles que tenham atitudes inconvenientes (você pode barrar apenas as atitudes inconvenientes), mas decidindo quais interações você quer ter com cada tipo de amigo que você tem. Assuma o controle da sua vida…

 

*Doutor em Ciência da Informação. Professor do PPGICS (Pós-Graduação do ICICT/FIOCRUZ). 

Blog: http://niltonbahlisdossantos.tumblr.com/

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