Os Arquivos sob a ótica social e humanista de uma Arquivista

23/05/2017 11:43

Sonia Scoralick de Almeida*

 

Há poucos dias, quando assisti à transmissão do lançamento pelo Arquivo Nacional, da Base de Dados sobre a Entrada de Estrangeiros no Brasil pelo Porto do Rio de Janeiro, suscitou-me mais uma vez o pensamento sobre o papel social dos arquivos vistos sob uma ótica humanista pelos tão bons serviços que estas instituições podem prestar à sociedade e ao indivíduo.

Ao manusear documentos de arquivo, enquanto analiso o conteúdo de uma peça documental para avaliação, classificação ou descrição, ocorre-me que, o que o documento nos revela, seja no papel, na fotografia, ou qualquer outro suporte, é apenas uma face do fato ali registrado. E que para cada informação contida no documento houve primeiramente, um pensamento humano, um desejo, uma energia, uma emoção para concretizar algo que, por ter sido levado a termo, foi documentado. Muitas vezes registros intencionais; muitas outras, não.

Daí entender que um arquivo é local de custódia de informações, num mesmo patamar que lugar de resgate de memórias, algumas vezes resgate da dignidade humana, assim como em outras, resgate da cidadania.

Arquivo não é apenas uma acumulação de papéis e documentos, é também, uma acumulação de ideais, ações e emoções não reveladas, mas subentendidas naquelas frases formais, ou em registros frios de nomes e números.

A base de dados lançada recentemente pelo Arquivo Nacional, refere-se aos imigrantes que aportaram no Rio de Janeiro nos anos entre 1875 e 1910. Formada a partir das relações de passageiros estrangeiros desembarcados no Porto do Rio de Janeiro durante esse período. Conta com possibilidades variadas de busca, sendo possível inserir simultaneamente vários dados, tantos  quantos o consulente tiver conhecimento, o que otimiza a recuperação da informação. Ou seja, uma base de dados que possibilitará a muitos, resgatarem a história e o destino de algum familiar que tenha embarcado em um navio com destino ao Brasil.

Imediatamente, recorri à consulta, para localizar meus antepassados dos quais tenho muito poucas informações. Ainda não as consegui. E se confirma o quão importante são, e quanto significado têm essas informações para aqueles que buscam por parentes seus que vieram para o nosso país, com isso, procurando reconstruir a história familiar ou até para satisfazer uma necessidade de comprovar bens e propriedades.

A professora Ismênia Lima Martins, da Universidade Federal Fluminense (UFF) foi a idealizadora do projeto, e teve o apoio e parceria do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e da Associação Cultural do Arquivo Nacional (ACAN). Na ocasião do evento de lançamento da Base de Dados, fez uma breve consideração de quanto empenho e esforço foram empregados por toda essa equipe, para que se alcançasse tal resultado.

Os trabalhos tiveram início no ano de 2008 até o ano de 2010, quando foram inseridos na Base de Dados, os anos de 1885 a 1891. Em 2015, retomados os trabalhos numa segunda etapa, a base de Dados foi ampliada, alcançando os anos de 1875 até o ano de 1910.

Daí, volto à minha consideração sobre cada um que trabalhou na condensação dessas informações, para a formulação dessa base de dados, quando houve a intenção do registro, uma idéia, um planejamento, uma ação, uma dedicação, esforço, energia e emoção, uma finalidade, até alcançar o resultado final, o propósito do trabalho; tanto quanto àqueles de séculos passados que, por questões de registro e controle de passageiros, intencionalmente ou não, estavam fazendo história.

Tais produtores de documentos, talvez jamais tenham imaginado que seus escritos e apontamentos pudessem transpor a barreira dos séculos e que prestariam tão grande serviço a posteriori, a usuários em tão longínqua data.

 

Referências

ARQUIVO NACIONAL (Brasil). Disponível em: <http://arquivonacional.gov.br/index.php/component/finder/search.html?q=base+de+dados+sobre+estrangeiros&Itemid=101>. Acesso em: 15 maio 2017.

______. Disponível em: <http://bases.an.gov.br/rv/menu_externo/menu_externo.php>. Acesso em: 16 maio 2017.

 

* Sonia Scoralick de Almeida. Arquivista graduada pela Universidade Federal da Paraíba. Email: soniascoralick@gmail.com

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